"Quando é verdadeira, quando
nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe
negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde
for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma
palavra que merece ser celebrada ou perdoada."
(GALEANO, 2002)
A Psicopedagogia nos proporciona um olhar diferenciado sobre
o aprendizado. A partir dessa visão enfocamos o aspecto da construção da aprendizagem
do sujeito pensante que tem vontades, desejos, sonhos e, o principal,
necessidade de interagir com o espaço onde habita. Com isso propaga a ideia de
que todo sujeito é capaz de aprender.
Com este breve texto relato a minha experiência com base nos
atendimentos realizados com crianças portadoras de TEA.
O TEA é hoje considerado uma síndrome comportamental com
etiologias múltiplas e curso de um distúrbio de desenvolvimento. Ele é
caracterizado por um déficit social visualizado pela inabilidade em
relacionar-se com o outro, usualmente combinado com déficits de linguagem e
alterações de comportamento (GILBERG, 1990).
O termo Espectro refere-se etimologicamente falando à sombra,
ou seja, é uma projeção do indivíduo (SILVA; GAIATO; REVELES, 2012).
Quando ouvia algo sobre TEA, imaginava uma criança isolada do
mundo, vivendo um mundo “a parte”, isolada de seu grupo de convívio e que se
comportava de maneira estranha. No entanto, nos atendimentos realizados,
observei que o TEA pode se apresentar de diversas formas, e muitas vezes tão
sutis, que se tornam até difíceis de serem percebidas.
O TEA pode se manifestar desde muito cedo, porém, é a partir
dos dezoito (18) meses de idade que suas características ficam mais visíveis. (MIRENDA;
DONNELLAN & YODER, 1983). Por isso é muito importante ter um diagnóstico
precoce para que as intervenções corretas e necessárias sejam feitas sempre
contando com o apoio do profissional junto à família e à escola.
O trabalho psicopedagógico traz muitas contribuições ao
sujeito portador do TEA, desde promover situações para amenizar os sintomas,
desenvolver habilidades individuais (observando as suas potencialidades e suas limitações),
prevenir comorbidades e reforçar a neuroplasticidade.
Em uma instituição escolar atendi crianças portadoras de TEA,
desde as mais passivas a outras mais inquietas.
A intervenção psicopedagógica com crianças portadoras de TEA
tem trazido aprendizagens significativas através das estratégias que fazem o
uso de espaços lúdicos, intervenções com jogos, instrumentos musicais,
massinhas de modelar e etc., como forma de se trabalhar o aspecto de
organização espacial, temporal, coordenação motora, diminuição de estereotipas
e birras, promovendo, assim, a inserção social e educacional desses alunos no
ambiente escolar.
Os jogos dramáticos são um excelente
recurso para o trabalho com as crianças com TEA por ela a criança manifesta sentimentos e angustias importantes (SLADE, 1978). Em algumas sessões lancei mão
dos jogos dramáticos com uma música de fundo. Ao manifestar a conduta lúdica, a
criança demonstra o nível de seus estágios cognitivos e constrói conhecimentos (KISHIMOTO, 2008).
Cito o exemplo de “Sorriso”, nome fictício que dei a um
menino de sete (07) anos, atendido por mim, portador de TEA, que não suportava
o barulho e a agitação em atividades dentro e fora da sala de aula.
Comecei a trabalhar nas sessões com ele, utilizando atividades
variadas dentro do ambiente escolar, como o pátio, a brinquedoteca e a biblioteca
da escola, onde sempre havia uma turma de alunos de outros anos, realizando
alguma atividade em pequenos grupos, ou individualmente estudando alguma
matéria.
Depois de muitos acompanhamentos (ou atendimentos se achar
melhor) Sorriso passou a suportar melhor o barulho e a agitação nas atividades
realizadas tanto dentro como fora da sala de aula.
